A busca incessante de Beatriz pelo pai, Valdemar Armachuski

Todos os dias Beatriz Matos, 32 anos, moradora de Curitiba, cumpre uma rotina. Ela acessa o site do Instituto Médico Legal (IML) e confere a entrada de cadáveres de cada uma das 18 unidades do órgão espalhadas pelo Paraná. Se tiver algum corpo não identificado, ela liga na unidade para levantar mais informações. Beatriz está em busca desesperada por informações de seu pai, Valdemar Armachuski, 75 anos, que foi visto pela última vez em 22 de junho de 2020, na comunidade de Linha Planalto do Jacutinga, em Manfrinópolis.

O idoso estava bem de saúde, saiu de casa para ir à capelinha, distante 150 metros, para rezar o terço, como fazia com frequência. Não levou nem documentos, nem dinheiro. “A vizinha da casa da frente da capela viu ele dentro da igreja e essa foi a última vez que foi visto.” Ela acredita que tenha sido entre 15h e 16h. “Eu olho diariamente a página do IML, mando e-mail para o investigador, posto no Facebook de grupos de desaparecidos de vários estados, faço o que está ao meu alcance e vivo na angústia de não saber”, relata Beatriz.

Seu Valdemar mora sozinho, mas no mesmo terreno fica a casa da sua irmã (Leonilda Bordinhao). A filha lembra que o pai dizia que queria ir morar com ela em Curitiba, contudo, não acredita que o idoso sairia sem documentos, sem dinheiro e de chinelos para ir à capital.

Com tanto tempo tendo se passado e nenhuma informação nova sobre o paradeiro do pai, Beatriz teme pelo pior. “É muito morro, mato fechado, casas e poços abandonados (na comunidade do interior). Meu sentimento é que alguém matou ele e deu um sumiço no corpo. A comunidade é pequena, as pessoas já se conhecem. Meu palpite é que, se de fato foi isso, foi alguém dali, alguém conhecido.” Beatriz conta que o Corpo de Bombeiros fez uma varredura ampla na comunidade com cão farejador. Além disso, a família contratou uma pessoa que trabalha com buscas para fazer um pente fino no local, mesmo assim nenhum vestígio foi localizado.

Beatriz não tem conhecimento de nenhuma desavença de seu pai. “Não que ele tenha me falado, o pai era alcoólatra, quando tomava ficava ignorante, cheio de razão, como a maioria dos bêbados fica.” Beatriz disse que foi informada pela Polícia Civil que seria ouvida também, mas acha estranho que até o momento não tenha sido intimada a depor.

Como foi o último dia de Valdemar
Dia 22 de junho amanheceu como um dia comum para Valdemar. Ele tomou café da manhã na casa da irmã (as refeições eram na residência da irmã e o pernoite em outra casa no mesmo terreno), ficou por ali enquanto ela fazia os afazeres da casa e preparava o almoço. “Depois de almoçar, a tia deu a ele a cachaça diária (sempre fazia, um copinho) ele foi para a casa dele, também como sempre fazia, tomou e tirou a habitual soneca”, conta a filha. Por volta das 15h então ele foi visto por uma vizinha na capelinha da comunidade, onde ia para rezar o terço, depois disso desapareceu. O idoso estava de chinelos, bermuda e camiseta azul. Ele não tomava nenhum tipo de remédio.

Um fato estranho no mesmo dia
A casa de João e Leonilda Bordignon (cunhado e irmã de Vademar) fica na margem da rodovia PR 182, entre Francisco Beltrão e Ampere, e naquela tarde do desaparecimento do idoso um fato muito estranho aconteceu. Uma caminhonete preta bateu na pilastra do quiosque (onde eles vendem pastel, caldo de cana, etc.) e o motorista fugiu rapidamente sem desembarcar.

Segundo relatos da família, o condutor fugiu sentido à capelinha, justamente no horário em que Valdemar não estava em casa. “Ela (caminhonete) veio da rodovia, se perdeu e bateu ali, nisso o tio correu pra ver o que tinha acontecido, pois ouviu o barulho, mas o motorista não desceu nem nada, simplesmente deu a ré e saiu, foi para a rua de trás da casa, onde fica a capela. Pode ter acontecido um atropelamento, não é improvável, se o cara bateu e sequer parou pra ver o estrago, não deveria estar na sua normalidade mental”, conjectura Beatriz.

João Bordignon viu apenas que era um veículo preto, mas não conseguiu anotar a placa. Conforme disse Beatriz, uma varredura em câmeras de segurança próximas poderia ajudar a identificar o veículo. “Por exemplo, se ele atropelou o pai, colocou na caçamba e desovou em outro lugar? Por isso as buscas com os cães não tiveram nenhum efeito. Na época das buscas, os cães ‘perdiam o cheiro dele’ no sentido da rodovia, depois da capela. Na minha opinião, a investigação da PC deveria também abranger pelo menos os registros das caminhonetes pretas e escuras da região.”

Fonte: Niomar Pereira – Foto: Arquivo família

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